quarta-feira, 20 de maio de 2009

Desenho bêbado

Nunca fui de beber, em parte por não gostar muito, em parte por não fazer bem à minha saúde. Depois de algumas cervejas, costumo passar uma semana com o sistema disgestivo em pandarecos. Como diz o ditado, há males que vem para o bem.
Quando a gente é jovem, porém, costuma viver como se o amanhã não existisse, topando algumas loucuras sem pensar nas consequências. Uma delas foi o primeiro e maior porre que me lembro de já ter tomado, por volta de 1988.
Foram bons tempos, nunca desenhei tanto na minha vida, mas foi um tempo de indefinições quanto à carreira. Eu explico. No ano anterior eu tinha prestado o serviço militar que, com todo o respeito, foi um ano perdido na minha vida. Nunca tive vocação para a vida militar e tudo que aprendi lá seria inútil na minha vida civil. Alguém saberia me dizer para que me serviria a ordem unida, por exemplo?
Quando falei de indefinições, não significa que não soubesse o que queria fazer. Eu queria trabalhar em algo ligado a desenho ou animação, mas não encontrei mercado para isso em Brasília, nem então, nem agora. Continua sendo difícil sobreviver de desenho em Brasília. Sei do que falo, pois tenho amigos da área que foram obrigados a ter um emprego fixo, às vezes em outro ramo, para continuar a fazer o que gostam como hobby ou como free-lancers. Então, de 1988 a 1990, foram dois anos sem emprego, vivendo sob a asa da família, até o momento em que acabei me inserindo na àrea gráfica, como arte-finalista, ainda nos tempos das pranchetas.
Voltando ao porre, um dia um vizinho me apareceu com um litro de cachaça mineira de alambique. Não era a primeira vez que eu tomava da branquinha, mas antes tinham sido doses bem homeopáticas, digamos. Misturamos mais um litro de Coca em um garrafão de vinho barato (sem o vinho, claro) e começamos a beber, conversando abobrinhas em frente à minha casa. Eu nunca tinha tomado bebida misturada, e como era docinha e descia fácil, rapidinho esvaziamos o garrafão.
Depois de cair uma chuva daquelas que só acontecem em Brasília, inesperada, corremos cada um para sua casa. Me sentei na sala, ainda sem sentir os efeitos do álcool. Sem brincadeira, menos de dez minutos depois, comecei a me sentir diferente. Estava consciente, ouvia o que os outros diziam, mas me sentia distante, ouvia tudo de longe. Os movimentos das mãos se tornavam descoordenados, as respostas táteis vinham com atraso, meio anestesiadas. Tentei ler, sem sucesso. Depois de umas três palavras, me perdia no texto. Quando me levantei, precisei me segurar na parede, sem equilíbrio, longe do meu centro de gravidade.
Meus irmãos perceberam que eu estava bêbado e, só de farra, sugeriram que fizesse um retrato da prima Elza, que estava conosco na época. Como bêbado não pensa direito, topei. O resultado, essa lástima, é o que se segue. Coitada da Elza, tão bonitinha, ficou parecendo um homem!



Outro retrato de Elza, feito na mesma época, sem influências etílicas: