quinta-feira, 12 de março de 2009

Marel, o mito (continuação)

No começo eu achei que seria fácil contar minha história com Marel, mas concluí que seria complicado contá-la em uma só postagem, por uma série de razões:
  • Não se trata da história do Marel, mas do tempo em que convivi com ele. Logo, seria a minha versão da história.
  • Para esclarecer certas coisas desse convívio (cerca de um ano e meio), teria que explicar como conheci o Marel e como isso afetou minha visão de mundo e minha vida a partir daí.
  • Há que se dar um desconto à passagem do tempo. Faz tanto tempo (quase 24 anos) que as lembranças ficam meio indistintas.
  • Não foi um período ininterrupto. A partir de 1986, não tive muitas informações sobre o que aconteceu com ele, já que só retomamos o contato a partir de 2001.

Um de meus primeiros desenhos como aluno do Marel.
Vista da área de manutenção do NUTEL, em 1985.
Lápis sobre papel jornal


O NUTEL
Graças a um trabalho escolar de História, que resolvi fazer em forma de história em quadrinhos, acabei sendo indicado pelo professor João Bosco para um estágio de desenho no NUTEL (Núcleo de Teleducação da FEDF, no SIA, em Brasília), que era onde ficavam a gráfica da fundação educacional e os departamentos de arte e bibliotecas ambulantes. Qualquer dia desses eu posto esse trabalho de História. Eu estudava na oitava séria noturna, depois de uma birrepetência por motivos que não vêm ao caso agora. Tinha 16 anos e era um garoto ingênuo criado em uma família evangélica ortodoxa, vinda do interior de Minas Gerais. Além disso, morava na Ceilândia que, naquela época, era pouco mais que uma favela. Nada poderia me preparar para o choque que foi conhecer Marel e sua visão cosmopolita de mundo.
Quem foi seu aluno sabe como foi a experiência de mostrar a ele uma pasta com seus desenhos. Achei que estava abafando, que desenhava muito, e foi muito frustrante ter que lidar com as primeiras críticas, diferentes dos elogios de sempre vindos da família e amigos. Além disso, ele tinha a mania de rabiscar os desenhos dos outros. Sei de muita gente que teve vontade de matá-lo por isso.


1985. Esboço a lápis para cartaz de uma loja infantil, não me lembro qual. O desenho é meu, mas mostra o resultado das aulas de composição e enquadramento que recebi do Marel. Essas manchas qua aparecem no papel são da famigerada cola de benzina.


Outro desenho meu de 1985, a esferográfica preta. Eu tinha pavor, trauma mesmo, de usar pincel. Não sei explicar porque, era um pânico irracional. Mais uma vez pode-se notar a influência das aulas de composição e enquadramento, além do uso de referência fotográfica para o gorila.


Outro desenho meu de 1985. Essas caveiras são, na verdade, uma só. Elas ficavam sobre um armário no NUTEL e eram usadas como modelo para desenho de observação e de estrutura da cabeça humana.

Colegas
Dos alunos que conheci, um dos mais antigos foi o Toninho Euzébio, da turma de 1982/1983. Em meados de 1985, quando comecei, não havia outro estagiário além de mim. Em 1986, aos poucos formou-se uma turma, com Raimundo Tabosa (o Broba), Elzimar, Gedean, Josias, Raimundo e alguns outros que vinham e sumiam, por não se adaptarem à personalidade excêntrica do mestre.


1985. Desenho meu num gurdanapo de papel em um bar qualquer, durante uma cervejinha. Não me lembro das pessoas que estavam na mesa, mas com certeza, estavam Marel e Toninho Euzébio, um de seus alunos mais antigos, hoje um conceituado diretor de arte na publicidade brasiliense.

Animação
Minha pasta de desenhos, à época, já mostrava o quanto eu era fascinado pelos quadrinhos. Meu sonho era ser quadrinista. Aos poucos fui aprendendo os rudimentos do desenho animado, tendo acesso aos bons manuais de Preston Blair e começando a fazer os exercícios cruciais de virada de rosto, de corpo inteiro e, o mais difícil de tudo, animar o personagem caminhando.
Marel morava na Área Octogonal, um bairro do Cruzeiro, com a mulher Elza, que também era uma das artistas do Nutel, e os três filhos, Lucas, André e Susane. Eu vinha todos os dias de ônibus da Ceilêndia para trabalhar na parte da tarde. Depois de alguns meses ajudando Marel a tocar seu projeto de animação, ele me convidou a morar em seu apartamento durante a semana. No final de semana eu voltava para a casa de meus pais.
No apartamento, ele tinha uma espécie de estúdio, um quarto só dele, onde guardava seus materiais de desenho, livros de arte e centenas de quadrinhos. Foi aí que tive o primeiro contato com os quadrinhos europeus e os clássicos dos anos quarenta e cinquenta, como Hal Foster e Alex Raymond. Foi também quando conheci Heavy Metal, a revista e o filme. Ambos um choque e uma revelação para mim. A revista mostrava, entre outros, o trabalho de Moebius, Serpieri, Richard Corben e Tanino Liberatore, esse dois últimos ídolos de Marel.

Histórias
Entre as histórias que me contava, falou de sua viagem aos Estados Unidos e Canada, no começo dos anos oitenta, na cara e na coragem, na base da mochilagem e da carona. Disse ter visitado os Estúdios da Disney, da Marvel e também a casa de Richard Corben, além do National Film Board, a meca da animação independente, no Canadá. Disse ter pego trabalho de motorista de caminhão para se deslocar para outros estados norte-americanos. A parte mais curiosa de sua viagem foi, segundo ele, na Venezuela, já de volta para casa, quando foi roubado, perdendo todos seus documentos. Preso como ilegal, sem documentos, safou-se por saber desenhar. Disse ter feito na parede da cela um retrato de Anwar Sadat, então presidente egípcio. Graças a isso, travou conhecimento com o diretor do presídio o qual, após encomendar-lhe um retrato da filha, levou-o em segurança à fronteira com o Brasil.


Desnho meu. Esferográfica azul sobre papel vegetal. 1985

Panfleto de 1986 para divulgação de uma campanha de exibição de filmes nas escolas da rede pública. O desenho é meu, mas a finalização em nanquim, pincel e aerógrafo e as letras do título (desenhadas à mão) são do Marel. Foi meu primeiro trabalho publicado.

Briga
Nos últimos meses de estágio, ele resolveu abrir um estúdio fora do NUTEL. Para isso, alugou uma sala comercial no final da Asa Norte, com duas pranchetas que também eram mesa de luz. Acredito que ele já estivesse tentando captar alguns clientes para produzir animações curtas, principalmente vinhetas comerciais. Acontece que os únicos de que tive conhecimento eram contatos políticos, que não deram muito certo, apesar de já termos produzido algum material qua não chegou a ser veiculado.
Depois de mais ou menos um ano e meio de convivência constante, desde a metade de 1985, houve um desgaste natural. Eu já não tinha mais muita paciência com certos comentários e manias de Marel. Depois de uma discussão desgastante, peguei minhas coisas e fui para minha casa, prometendo não mais voltar. Promessa quebrada, porque depois de alguns dias ele foi à Ceilândia, me convencendo a voltar. A volta foi bem curta. Em menos de uma semana, outra discussão. Foi o fim.
Acho que ele nunca me perdou por abandonar o barco bem no início do processo, mas não me arrependo. Apesar de grato pelo muito que aprendi com ele, não dava mais para continuar.


Quando o reencontrei, por volta de 2001, dando aulas de desenho da figura humana no Espaço Cultural da 508 Sul, em Brasília, Marel deu-me esse cartão com seu e-mail e telefone. Ele tinha acabado de rabiscá-lo a lápis com seu traço inconfundível.

Espaço Cultural 508 Sul
Muitos anos depois, em 2001, soube que ele estava dando aulas de desenho da figura humana no Espaço Cultural da 508 Sul. Lá, depois de ser muito bem recebido por ele, conheci colegas como Toni Mesquita, Thiago, Alex, Abraão, Leon, Jesiel, Amanda, Bruno Braga, o outro Bruno (que desenhava pra caramba) Cris Soares, Conceição (que não gostava de fotos, dizia que roubavam a alma), Roni, Os gêmeos Gabriel e Pedro (os Mesquita Bros), Éder, Geanderson, entre outros. Eram dois encontros semanais, às quartas e sábados, a partir das quatro da tarde. Não era um curso formal e muito organizado, como era típico de Marel. As aulas geralmente eram livres, cada um desenhava o que queria, mostrava a Marel, que fazia as correções e comentários, geralmente cáusticos e irônicos, para delírio da platéia que se amontoava em volta da mesa. Tenho boas lembranças e bons amigos dessa época.


A partir da esquerda, Alex, Geanderson, Éder e Marel.


Nesta foto há algumas pessoas que não conheço e outras de que não me lembro o nome. Posso identificar, pela cabeleira loura, o Leon (ao fundo, à esquerda), Éder (de pé, ao centro), Marel (ao fundo, à direita), Gean (sentado, à direita) e Roni (em primeiro plano, à direita).






Os três recortes acima são de um jornal interno da FEDF, o INFORME-SE, de junho de 1988. As ilustrações são de Marel e as duas primeiras mostram que ele já começava a fazer uso dos softwares então existentes, que eram bem rústicos e limitados. Notem a pixelização das figuras.


Marel. Óleo, 1989. Cartão postal para os Jogos Escolares Brasileiros de 1989.

Autobiografia de Marel (aqui)